top of page

D´JAMBI

Em São Tomé e Príncipe, o povoamento veio de diferentes partes de África. Angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e guineenses trouxeram orgulhosamente as suas culturas para estas ilhas e nelas mesclaram práticas de feitiçaria, cura, exorcismo, dança e outras que encontramos, tão fortemente, no coração das crenças dos povos africanos. O D’Jambi surgiu desse encontro. Do sincretismo de ritos cuja origem se perde no início dos tempos, até outros bem mais recentes, trazidos pelos colonizadores europeus.

Ritual mágico ligado ao misticismo, o objectivo do D’Jambi é atrair as almas dos mortos e, através do transe, comunicar com elas e apaziguar os espíritos dos antepassados. Realizado por um mestre curandeiro com apoio de um ajudante, crê-se que usa magia branca ligada ao Cristianismo para curar aqueles que sofrem de loucura, perseguição, fraqueza, mau-olhado e outras maldições rogadas por feiticeiros ancestrais inimigos, senhores da magia negra do demónio.

Primeiramente, um banquete é preparado para receber o espírito com elementos do seu tempo nesta vida: comida, flores, velas, cigarros, álcool… Depois, músicos e mulheres invocam os espíritos com as suas canções encantatórias. Ao toque da música, os possuídos entram em transe e morrem simbolicamente. Em seguida, o curandeiro ressuscita-as, apenas para as deixar num estado límbico: mortos-vivos que acolhem e dividem agora os corpos com o D’Jambi. Durante o transe, os possuídos convencem a audiência da possessão sacudindo os corpos em danças frenéticas, falando línguas diferentes e submetendo-se a actos prodigiosos. Caminham sobre o fogo, mastigam objectos cortantes, automutilam-se. Mas o público não se desloca ali apenas para assistir passivamente a este espectáculo poderoso e perturbante… Curandeiro e possuídos têm, durante o transe, o poder de reconhecer o mal; se o vislumbrarem num dos membros da plateia, também ele poderá ser tocado e libertado.

Embora menos praticado do que outrora, o D’Jambi permanece uma manifestação cultural importante em São Tomé, acontecendo todos os fins-de-semana em diferentes pontos do país, com excepção dos domingos e tempo da Quaresma, datas do calendário que a influência católica manda guardar para o descanso, oração, reflexão e reconciliação entre fiéis.

No dia seguinte, as marcas das torturas levadas a cabo durante esta prática impressionante, parecem, simplesmente, desaparecer dos corpos dos exorcizados. Como se nunca tivessem estado ali.

bottom of page